Terça-feira, 23 de Novembro de 2010

enganou-se, portanto.

Julgava conhecê-la. Todas as pequenas perfeições, todos os seus erros, todas as suas fraquezas e todos os seus feitios. Enganou-se, portanto. Conhecia a outra face, a que se humilhava, e que tinha sempre a pele morena e os olhos brilhantes quando se encontravam. Aquela de sapatos vermelhos de salto alto e cabelos loiros. Julgava então que ela seria assim na realidade, para todo o seu sempre. Enganou-se, portanto. Julgou as suas falas ensaiadas perfeitamente naturais, e todo o seu charme encantador. Não existia estranheza, nada mais para conhecer, nada mais para amar, nada mais por que lutar. Enganou-se, profundamente. E ele, que já julgava conhecê-la! Desconhecia a sua parte arrogante, a melodia por detrás da capa. Desconhecia que ela o poderia fazer totalmente feliz, mesmo com todas as suas imperfeições. Com as olheiras, os olhos castanhos, o cabelo escuro encaracolado, a sua silhueta obesa e as unhas mal pintadas. E julgava ela que isso seria possível. Julgava ela que não o conhecia a ele, quando tudo o que ela sabia era apenas o que ele era. Aquele pedaço de carne andante, sem defeitos nem razões de queixa. Julgava ela no inicio que ele nunca a faria chorar. Conhecia a melhor e toda parte dele. Não o quis conhecer pela aparência, não o amava por esses motivos. Era então porque se sentia em casa, se sentia de tal modo protegida. Criou na sua cabeça espaços só para ele, porque em muito tempo apenas ele tinha sido simpático para com ela. E sentia que sem ele, voltaria tudo a ser a mesma coisa. Criou uma dependência demasiado forte. Acreditou em todas as palavras. Sentiu que as imperfeições dela não mudariam em nada a sua relação. Importava-se ele agora, apenas pelo físico. Enganou-se ela, portanto. E ele que julgava conhecê-la, estava enganado. E ela, que julgava não o conhecer, conhecia-o bem. Estavam ambos enganados, portanto. Julgava ele que as directas eram apenas por diversão, enquanto ela, sentia-se lisonjeada por estar com ele uma noite inteira. Ou falar com ele, o outro ele. E ele, ele demorava séculos a responder-lhe, e dizia-lhe que era por distracção, enquanto ela, tinha pura certeza de que ele tinha pessoas mais interessantes com quem conversar. Tornaram-se muito íntimos, muito chegados, cada noite, cada dia, conheciam-se cada vez melhor. Ela era tímida e horrível. Ele era sociável e charmoso. E ele que lhe dizia que ela era bonita para ser simpático. Quando a viu, mudou de ideias. Enganaram-se os dois, portanto.

«, a sara não fala assim. conheço bem a sara.»


publicado por killua às 20:05
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